Bao é um filme produzido pela Pixar que foi ganhador do Oscar de melhor curta metragem animado de 2019. 

Com apenas 8 minutos, o curta retrata uma história de maternidade protagonizada por uma metáfora em que um bolinho ganha vida e se transforma em um pequeno bebê. A mulher que fez esse bolinho, passa a exercer a função materna, alimentando, protegendo e se dedicando emocionalmente ao seu bebê. 

Porém, conforme ele vai crescendo percebemos que a personagem-mãe tem uma dificuldade em deixá-lo interagir com outras pessoas, mostrando características de ser uma mãe muito protetora.

Mas o filho-bolinho não cede às expectativas e idealizações da mãe e começa a se relacionar com outras pessoas. Em uma cena bastante icônica do filme, o filho chega com uma noiva e decide ir embora de casa, deixando sua mãe desesperada. Nesse momento ela decide engolir o filho para impedir que ele a deixe, o que logo em seguida faz com que ela entre em um momento de muita melancolia. 

A metáfora apresentada pelo filme traz muitas reflexões sobre o desenvolvimento infantil e a função materna e paterna nesse percurso. 

Para Lacan, para um sujeito se constituir como tal é necessário que ele seja esperado e que ocupe um lugar simbólico determinado. Ao nascer esse bebê se depara com o desamparo biológico e simbólico e para que possa sobreviver precisa de cuidados básicos de alimentação e conforto, mas não somente isso: esse bebê precisa também de um amparo que vem através da linguagem, com palavras que o situem sobre quem ele é e o que se espera dele.

Através desse mergulho na linguagem facilitado por quem ocupa a função materna o bebê sai do campo da necessidade para se introduzir no campo do desejo. O bebê ocupa esse lugar dado a ele mas, ao longo do seu desenvolvimento, ele precisa também se deparar com a falta, que se exprime com a própria ausência da figura materna. 

A criança vai forjando maneiras para lidar com a ausência da mãe, que pode acontecer inclusive através de brincadeiras. 

A partir das palavras que recebeu, a criança então passa a falar por si mesma e ter suas próprias palavras.

O que vemos em Bao é que a mãe não consegue dar esse espaço para o filho, ou ainda podemos nos perguntar também quem ocupava a função paterna nessa história já que, “neste sentido, Lacan (1992) faz uma analogia entre a mãe e um crocodilo com sua bocarra aberta prestes a abocanhar o seu filho, sendo, por conseguinte, necessária a intervenção paterna - Nome-do-pai (Lacan, 1986) - para impedir que a criança seja devorada.”*

Apesar dessas contribuições a partir da psicanálise, não podemos perder de vista as expectativas sociais que recaem sobre as mulheres no que se refere a maternidade e no quanto, para muitas e talvez possamos dizer que para a personagem do curta também, a maternidade ocupa um lugar estruturador da vida. A personagem-mãe parecia viver um tanto isolada sem outros lugares para direcionar o seu desejo, depositando todas as fichas na relação mãe - filho. Não é estranho imaginar que na iminência de “perder” esse objeto amado afetos de angústia e melancolia se aproximem. O que acho legal destacar é de como é importante que existam espaços de escuta para esses casos, para que seja possível trazer contornos e possibilidades ressignificar esse ninho vazio e esse lugar enquanto mulher-mãe. 

Recomendo que vocês assistam ao final do curta para descobrirem as saídas que a protagonista encontra.

 

*citação do artigo: Maternidade e poder da Danielle Ferreira Gomes Moura

Bao

Bao é um filme produzido pela Pixar que foi ganhador do Oscar de melhor curta metragem animado de 2019. 

Com apenas 8 minutos, o curta retrata uma história de maternidade protagonizada por uma metáfora em que um bolinho ganha vida e se transforma em um pequeno bebê. A mulher que fez esse bolinho, passa a exercer a função materna, alimentando, protegendo e se dedicando emocionalmente ao seu bebê. 

Porém, conforme ele vai crescendo percebemos que a personagem-mãe tem uma dificuldade em deixá-lo interagir com outras pessoas, mostrando características de ser uma mãe muito protetora.

Mas o filho-bolinho não cede às expectativas e idealizações da mãe e começa a se relacionar com outras pessoas. Em uma cena bastante icônica do filme, o filho chega com uma noiva e decide ir embora de casa, deixando sua mãe desesperada. Nesse momento ela decide engolir o filho para impedir que ele a deixe, o que logo em seguida faz com que ela entre em um momento de muita melancolia. 

A metáfora apresentada pelo filme traz muitas reflexões sobre o desenvolvimento infantil e a função materna e paterna nesse percurso. 

Para Lacan, para um sujeito se constituir como tal é necessário que ele seja esperado e que ocupe um lugar simbólico determinado. Ao nascer esse bebê se depara com o desamparo biológico e simbólico e para que possa sobreviver precisa de cuidados básicos de alimentação e conforto, mas não somente isso: esse bebê precisa também de um amparo que vem através da linguagem, com palavras que o situem sobre quem ele é e o que se espera dele.

Através desse mergulho na linguagem facilitado por quem ocupa a função materna o bebê sai do campo da necessidade para se introduzir no campo do desejo. O bebê ocupa esse lugar dado a ele mas, ao longo do seu desenvolvimento, ele precisa também se deparar com a falta, que se exprime com a própria ausência da figura materna. 

A criança vai forjando maneiras para lidar com a ausência da mãe, que pode acontecer inclusive através de brincadeiras. 

A partir das palavras que recebeu, a criança então passa a falar por si mesma e ter suas próprias palavras.

O que vemos em Bao é que a mãe não consegue dar esse espaço para o filho, ou ainda podemos nos perguntar também quem ocupava a função paterna nessa história já que, “neste sentido, Lacan (1992) faz uma analogia entre a mãe e um crocodilo com sua bocarra aberta prestes a abocanhar o seu filho, sendo, por conseguinte, necessária a intervenção paterna - Nome-do-pai (Lacan, 1986) - para impedir que a criança seja devorada.”*

Apesar dessas contribuições a partir da psicanálise, não podemos perder de vista as expectativas sociais que recaem sobre as mulheres no que se refere a maternidade e no quanto, para muitas e talvez possamos dizer que para a personagem do curta também, a maternidade ocupa um lugar estruturador da vida. A personagem-mãe parecia viver um tanto isolada sem outros lugares para direcionar o seu desejo, depositando todas as fichas na relação mãe - filho. Não é estranho imaginar que na iminência de “perder” esse objeto amado afetos de angústia e melancolia se aproximem. O que acho legal destacar é de como é importante que existam espaços de escuta para esses casos, para que seja possível trazer contornos e possibilidades ressignificar esse ninho vazio e esse lugar enquanto mulher-mãe. 

Recomendo que vocês assistam ao final do curta para descobrirem as saídas que a protagonista encontra.

 

*citação do artigo: Maternidade e poder da Danielle Ferreira Gomes Moura

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